domingo, 24 de maio de 2009

Estranho masoquismo


Existem duas formas de se escrever. A primeira, e mais estranha, é quando as coisas brotam e você tem que por no papel. A segunda, mais frequente e mais difícil, é o parto. Para parir, geralmente você é obrigado (até por si mesmo) a escrever. Não é que não haja motivação, mas é preciso pesquisar, espremer, forçar até conseguir por no mundo o que se pretende. E nem sempre se é bem sucedido.

O que sinceramente me incomoda nesse processo é o caminho inevitável: cérebro – mão – folha em branco. É um caminho também inverso: a folha em branco oprime a mão que censura o pensamento. Meu sonho era por um fim nisso. A figura perfeita seria ideias impressas: cabeça e papel intimamente ligados. Mas como não sei desenhar, escrevo.

Clarice na foto porque foi a resposta com mais sentido que encontrei até hoje: "Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há nada para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.”

Esse trecho de A hora da estrela simplesmente me fez enxergar o meu futuro. E o que eu vi? Bem, um copo de café, um óculos e a folha em branco.


p.s.: pronto desabafei! E por incrível que pareça, sem nenhuma música na cabeça... (odeio/amo rimas)



4 comentários:

Péricles Carvalho disse...

gostei disso, e tb acredito que escrever se torne uma necessidade...

é instigante isso, e ao mesmo tempo, é interessante! ainda que seja agonizante (rimou, oO)

que continuemos cada vez mais inquietos, escrevendo mais e produzindo mais...

besos de tuyo amigo!

Túlio Moreira Rocha disse...

é legal filosofar sobre o ato de escrever. Até porque é a única coisa que eu sei fazer - bem ou mal - na vida...

às vezes é um parto gostoso, fácil... outras é um processo mto dificil...

me lembrou o texto recente que eu escrevi sobre o Pio Vargas, e que está no blog:

"Escrever é viajar quieto, é ir longe sem mover-se, é voltar sem nunca ter ido, é sair sempre de onde supostamente se está para os mais extasiantes e estranhos lugares, ocasiões e situações." (Pio Vargas)

bjãooo!

Ju Marton disse...

"um copo de café, um óculos e a folha em branco. "

acho um futuro muito digno.

belo texto, bem se vê que esse futuro não é tão futuro assim. ;*

[...] disse...

adorei!!

=*
Já assitiu o filme " A hora da estrela" ?