terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Smiths for week


Me leve para sair esta noite
Onde exista música e pessoas
Que sejam jovens e vivas
Dirigindo no seu carro
Eu nunca quero ir para casa
Porque eu não tenho mais uma casa

E se um ônibus de dois andares
Batesse em nós
Morrer ao seu lado
Que jeito divino de morrer
E se um caminhão de dez toneladas
Matasse nós dois
Morrer ao seu lado
Bem, o prazer e o privilégio são meus.

Há uma luz que nunca se apaga...


The Smiths - There Is A Light That Never Goes Out




p.s.1: Muita gente acha que essa é a melhor música dos Smiths. Eu concordo? Talvez.


p.s.2: There is a light that never goes out está na trilha de "500 dias com ela", em cartaz nos cinemas. Vamo ver? Ótima crítica do mr. Túlio,
aqui.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

15º Goiânia Noise Festival


Música e cultura em diversas doses no 15º Goiânia Noise Festival

*texto publicado originalmente no site Netmúsicos.


Pisei no Centro Cultural Martim Cererê, com o mesmo objetivo de anos atrás: ver bons shows no Goiânia Noise Festival. Os anos passados, no entanto, mostram a maturidade que o evento alcançou. Para começar, o Martim (como carinhosamente é conhecido o espaço) não foi o único palco do Noise. Nem o rock a única atracão. Nunca ouve uma variedade tão grande de estilos musicais e manifestações artísticas como nessa 15ª edição. Exposições (fotográfica e de artes plásticas), mostra de filmes trash, debates e claro, a razão do festival, a música! Digo música, porque especialmente desta vez, o rock dividiu palco com a MPB, ritmos regionais, hip hop, música eletrônica e até chorinho. Ufa!

As novidades foram celebradas tanto pela imprensa local quanto pela nacional, de Rede Globo à MTV. Palcos espalhados por toda a cidade, festival nos moldes europeus no centro do Brasil. Para driblar a falta de espaço (o Centro Cultural Oscar Niemeyer, que sediava o festival há algum tempo, foi interditado), A Monstro Discos fez parcerias, dividiu e ampliou os locais de acesso do Noise. Ao invés de se concentrar em três dias e um só local, o festival invadiu todos os lugares alternativamente divertidos da cidade, se é que vocês me entendem. Ah, e foi até para a periferia (ao som do rap, claro). Diante disso, não pude deixar de conferir o que desse para ver da vasta programação.

Na primeira noite de festival, encontrei na cabine do DJ o produtor musical Carlos Alberto Miranda que me explicou do clima do festival: “Goiânia merece o título de capital do rock, no sentido de que aqui o rock é muito verdadeiro”. E isso foi muito bem representado na abertura do Noise, começando pelo britshpop do Motherfish. Letras e inglês, com raízes punks suavisadas, a banda animou a noite de abertura do evento na boate Fiction. Outro grande destaque do rock goiano é a badalada Black Drawing Chalcks. Destacada como revelação no próprio festival pelo produtor Miranda, o grupo destilou todo seu peso num teatro apinhado de gente. Despretenciosamente divertidos, a rapaziada foi uma das grandes atrações de sábado. Isso refiro-me, ao ponto do pessoal dizer: “vim aqui para ver Black Drawing Chalcks. Sou goiano, porra!”

E das atrações de fora, o que pôde conferir? Exemplos drásticos: do multi-instrumentista Hermeto Pascoal, passando pelo punk rock cru da pernambucana Devotos e chegando à brasiliense Móveis Coloniais de Acajú (que quase botou Martim abaixo). Diante de uma programação tão diversificada, como público, fiz minha seleção pessoal. Porém, uma sensação incômoda ainda passava pela minha pela cabeça da galera que ainda conhecia o festival de outros carnavais. Onde estão as atrações mais famosas? “Sem é claro, desmerecer os artistas que vieram, o evento é o mais aguardado de Goiânia Rock City. Um dos fatores é que geralmente, nós esperamos assistir shows de bandas que raramente viriam à cidade em outra ocasião e não vi isso esse ano.”, explicou Laís Morais.

Seguindo a onda da entrevistada, sem ofender, mas dos readliners destaquei As Mercenárias. Som post punk, letras de protesto e quase 30 anos após o início em São Paulo, nós tivemos o privilégio de encontrar esse grupo histórico em boa forma. Show estimulante, com direito a improvisos e sem esquecer dos clássicos, como Polícia e Pânico, que o público pedia aos berros. O grupo acaba de retornar e, no Noise, prometeu novas gravações. “Todo mundo me reconhece como Mercenária, então é um repertório que merece ser tocado. Não adianta fugir disso”, comentou a baixista Sandra Dee.

Em comemoração, o baile de debutante do Noise terminou como começou: entrada franca e gente animada em tocar. Diego de Morais e O Sindicato última atração, da última noite de Goiânia Noise. Mas muitas outras ainda estão por vir. Seria tolice não afirmar que em 15 anos, o Goiânia Noise quebrou não só os paradigmas musicais goianienses, mas também mudou a rotina dos roqueiros da cidade. No lugar onde tinha o marasmo, em termos de rock, existe hoje uma cena alternativa consolidada. Como nem tudo é só maravilhas, nos resta sempre lembrar: Goiânia ainda precisa de novos espaços para abarcar a quantidade de ideias surgidas todos os dias. Fica a dica.

domingo, 15 de novembro de 2009

Toquei, indiretamente, em Clarice

Já era umas seis da tarde e eu não havia colocado uma migalha na boca. Para completar, uma dor de cabeça chata. Num instante eu iria desmaiar, no outro estava sentada de frente para um senhor mais velho que meu avô. Bem, era uma entrevista. Depois de fazer umas perguntas capengas e ouvir umas respostas simpáticas, resolvi arriscar:

- O senhor citou, durante o debate, a Clarice Lispector. Talvez, eu esteje enganada mas parece que ela está na moda… livros sobre ela sendo lançados e tal. Para o senhor, por que se fala tanto nela agora?

- A importância da Clarice é desde seu primeiro romance. Quero dizer, é uma escritora de tal abundância, de tal força literária, que desde o início aqueles providos de conhecimento literário sabiam que estava nascendo ali uma estrela. O Antônio Cândido, por exemplo, escreveu logo no início da carreira dela quando ela, jovem, publicou o primeiro romance. Eu cheguei a estar com Clarice Lispector algumas vezes e nunca exprimi a ela, verdadeiramente, o que eu achava porque faltava ambiente... ela morava no Rio e eu estava morando em Belo Horizonte. Mas depois, quando eu fui para São Paulo, nós tivemos mais contato. E quando ela estava no hospital, já em fase próxima a morte, em novembro de 1977, eu fazia a crônica da Veja e escrevi uma apaixonada pelo lançamento de “A Hora da Estrela”. Ela leu e telefonou para mim, agradecendo o artigo, pelo entendimento, acho, que ela concebeu manifestada a cerca de sua obra. Então, tenho a impressão que a Clarice ficou muito motivada, muito emocionada, com o meu artigo na Veja. Eu conversei com ela em novembro. Em dezembro, ela morreu. (pausa constrangedora) Triste.

Olhando nos olhos dele e em saber muito o que responder, fui sincera:

- É… triste!

Enquanto ele autografava outro livro, eu “saí discretamente pelas” costas do escritor.



p.s.1 : o entrevistado é Fábio Lucas. Ele falava sobre cinema e literatura. Nunca tinha ouvido falar nada a respeito do cara, mas ele é um respeitado crítico de arte. Tem vários livros lançados também.

p.s.2.: Clarice Lispector escreveu seu primeiro romance com 17 anos. Chama-se "Perto do Coração Selvagem" e eu dei um exemplar para a dona Cindy Faria no último natal. Até hoje ela não me emprestou. Fica a dica, bjs.


No vídeo abaixo, parte de uma entrevista concedida por Clarice em 1977 para a TV Cultura. Ela fala sobre uma novela ambientada no Rio de Janeiro, a heroína é uma nordestina. Frase final: "Por enquanto, estou morta. Estou cavando o meu túmulo".

Fábio Lucas estava certo, triste.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Eu quero uma banda assim:

Find a cure,
find a cure for my life.

Oh, my God!
Oh, you think I'm in control
Oh, my God!
Oh, you think it's all for fun...

Ida Maria - Oh My God!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Equilíbrio? Distante...


Dove sei ? Come stai?

Due anche se,

non ci sei.

Io e te, sempre o mai

Siamo noi, siamo in due…



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pitty - Chiaroscuro (2009)

Entre extremos, sombras e paixões

Com serenidade, a baiana Pitty chega ao quarto CD

Priscilla. 1,60 m, Pitica. Atitude, Pitty. Perdoem, meu resumão de vida rotesco da única roqueira que toca no rádio, aparece na TV, ou seja, de fácil acesso nos anos 2000. “Hoje aos 30 é melhor que aos 18”. Será mesmo? Aos 18, Pitty estava em Salvador, e gritava em linguagem hardcoriana hinos de revolta do grupo Inkoma. Hoje, aos 31, quatro álbuns lançados e um nome de peso na música brasileira.

Muito se falou a respeito da nova fase da cantora, ou melhor, da banda. Que rumos a Pitty balzaquiana iria tomar? O caminho óbvio era consagrar sua pegada, com guitarras raivosas e frases de impacto. Porém, ela resolveu arriscar e pegou outra curva. Para uns soou pop e para outros experimental. Na verdade, o disco “Chiaroscuro” é um pouco dos dois.

Entre extremos, Pitty abre o disco. Em “8 ou 80”, Pitty destila sua personalidade entre guitarras oscilantes e backvocals ao fundo, que dão à canção um tom sombrio. Mas, isso é logo quebrada pelo primeiro single do álbum: “Me adora”. Essa provavelmente, você já escutou alguma vez. Desde “Máscara”, noto essa canção como um grande marco na carreira de Pitty. Não que ela nunca tenha feito canções leves e apaixonadas (quem não se lembra de “Equalize”), mas os rumos tomados aqui foram diferentes.

A princípio, me pareceu uma balada melada, chata e pretensiosa. E ainda sim, com mais de 1 milhão e 500 mil visualizações em 2 meses no YouTube. Então, resolvi ouvir novamente. Após, a segunda, terceira ou quarta audição já cantarolava “Me adora” por aí. Além de pegar o ouvinte, aos poucos a música desmistificou a impressão melosa e mostrou a atitude das letras de Pitty por detrás de temas pessoais. É óbvio que existe versos como: “Revolução Mental / Tá na hora de acordar!”, da época de hardcore soteropolitano, demonstram de maneira muito mais direta a força da artista. Mas aos trinta e poucos, Pitty comprova que outros tipos de força, além da agressão, são mais úteis empiricamente.

Por exemplo, aprender a reconhecer medos não seria ter atitude perante a vida? “Medo, escorre entre os meus dedos / Entre os meus dedos / Eu lambo os dedos / E saboreio meu próprio medo”, declara a cantora na faixa três do disco. Outras canções também extravasam sentimentos cheios de oscilações entre calmaria e explosão. “Fracasso”, dá um tapa na cara nos derrotistas e acaricia uma paixão logo em seguida com “Só Agora”.

De Balzac à Simone de Beauvoir, Pitty ainda dilacera a imagem tradicional de mulher na música “Desconstruindo Amélia”. Reflexo de uma geração que desdobra-se entre a profissão e as exigências domésticas. “Já não quer ser o Outro, hoje ela é Um também.” Apesar da minha admiração pelo conteúdo das letras, a parte musical deixa a desejar. Isso não significa que “Chiaroscuro” seja mal feito ou pouco criativo, mas o eixo musical varia pouco e sonoridade das canções, com o tempo de audição, fica repetitiva. Detalhes para uma balzaquiana que tem nas costas o peso ou a honra de levar o bom rock de frequências radiofónicas à redes de internet sem fio.

Sei que todo mundo já viu, maas...


p.s.: Além do CD, Pitty, Martin, Joe e Duda estão prestes a lançar o “Chiaroscope, o filme”. O DVD traz vídeos das gravações do disco, feitas na casa do baterista da banda, o Duda. A direção é de Ricardo Spencer e o produto está disponível para pré-venda no Submarino e na Saraiva. O mais curioso é além de disco e DVD, a capa de “Chiaroscuro” foi produzida no mesmo momento, pela artista plástica Catarina Gushiken.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ian Curtis e "Control"


Não há sol em Manchester
*texto publicado originalmente na Revista Bula.
A minha opinião sobre essa cidade inglesa formou-se marjoritariamente pelas letras dos principais expoentes musicais vindos de lá: The Smiths e Joy Division. Ambos tristes, mas a diferença entre eles é a esperança. Ao ouvir Joy Division encontramos tudo, menos saídas para a confusão. Isso já nota-se mesmo antes de qualquer conhecimento sobre a vida do letrista e vocalista, Ian Curtis.

Um instinto qualquer mostrou-me isso na primeira vez que ouvi a banda. Havia acabado de acordar, liguei a MTV e uma música de cortar o coração me atingiu. Era o clipe de “Love Will Tear Us Apart”. Eu não entendia o que Ian cantava, só a tristeza pungente na voz e na postura do rapaz. A poesia ali ultrapassava a barreira da língua, era palpável. De onde vem isso?, foi o que veio à minha cabeça.

Ian Curtis cresceu num lugar triste e sombrio. Fato. Além das canções, o restante do processo veio à luz com o filme “Control”. Um encanto construído nas bases da “melancolia fria, romantismo negro e desesperança pós-industrial”, ou seja, uma biografia de Ian e em preto e branco. Lá, as fases do jovem foram explicitadas: de garoto problema à estrela do rock, em questão de poucos tempo. E com 23 anos ele já estava enforcado na área de serviço.

Mas como, já diria Cazuza, gravar discos é uma forma de permanecer na Terra, Ian começou a direcionar seus instintos musicais ao som de David Bowie. Para isso, o diretor Anton Corbijn coloca no ator Sam Riley calças bocas de sino e lápis no olho. Eis a imagem do adolescente Ian Curtis. Além da excepcional semelhança física entre ator e cantor, a atuação de Sam é incrível. Da linda cena de amor juvenil com a esposa Deborah Curtis, à confusão diária em que o Ian vivia naufragado, o ator foi perfeito. Tanto que facilmente transporta o espectador e faz acreditar que realmente é Ian e os garotos do Joy Division que vemos ali.

A história do grupo começou em1976, num show dos Sex Pistols. Ian, Bernard, Peter e Stephen eram os caras. E Joy Division foi o fato. Em “Control” ouvimos Ian explicar a ideia. O nome da banda significa “Divisão da Alegria” mas como nada é só o que aparenta, esta divisão era o local onde as mulheres judias eram presas e abusadas sexualmente pelos nazistas, durante a Segunda Guerra.

O nome da banda seria apenas uma forma de chocar as pessoas? Sim e não. A realidade já era chocante o suficiente. Imaginem vocês num show, no final da década de 70, e o vocalista começa a ter crises epilépticas no palco. O que parecia ser apenas um jeito louco de se dançar, era imitação das crises verdadeiras que Ian sofria. Às vezes no próprio palco. Toda essa mistura só era a ilustração corporal da melancolia única presente nas músicas de Ian Curtis.

Por falar em músicas, como elas estão inseridas no filme? Com a carreira de destaquem em videoclipes e fotografia, o diretor Corbijin soube como ninguém aliar as cenas de “Control” às músicas do Joy Division. “Digital”, “Atmosphere”, “She's Lost Control”, “Transmission” todas de uma forma ou de outra impregnadas na tela.

Mas duas me chamaram atenção em especial. Ian e a esposa caminhando pelas ruas de Macclesfield. Debbie questiona o amor de Ian por ela. Ele responde: “Acho que não te amo mais.” E “Love Will Tear Us Apart” explode. Ainda nessa canção, é feita uma reconstrução do clipe clássico (aquele que me referi no início do texto). Lindo!

A outra cena é quando Debbie encontra o corpo de Ian em sua casa. Gritos em meio à Atmosphere. O epitáfio no túmulo do artista: o amor vai nos destruir, tradução de love will tear us apart. 18 de maio de 1980.