quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pitty - Chiaroscuro (2009)

Entre extremos, sombras e paixões

Com serenidade, a baiana Pitty chega ao quarto CD

Priscilla. 1,60 m, Pitica. Atitude, Pitty. Perdoem, meu resumão de vida rotesco da única roqueira que toca no rádio, aparece na TV, ou seja, de fácil acesso nos anos 2000. “Hoje aos 30 é melhor que aos 18”. Será mesmo? Aos 18, Pitty estava em Salvador, e gritava em linguagem hardcoriana hinos de revolta do grupo Inkoma. Hoje, aos 31, quatro álbuns lançados e um nome de peso na música brasileira.

Muito se falou a respeito da nova fase da cantora, ou melhor, da banda. Que rumos a Pitty balzaquiana iria tomar? O caminho óbvio era consagrar sua pegada, com guitarras raivosas e frases de impacto. Porém, ela resolveu arriscar e pegou outra curva. Para uns soou pop e para outros experimental. Na verdade, o disco “Chiaroscuro” é um pouco dos dois.

Entre extremos, Pitty abre o disco. Em “8 ou 80”, Pitty destila sua personalidade entre guitarras oscilantes e backvocals ao fundo, que dão à canção um tom sombrio. Mas, isso é logo quebrada pelo primeiro single do álbum: “Me adora”. Essa provavelmente, você já escutou alguma vez. Desde “Máscara”, noto essa canção como um grande marco na carreira de Pitty. Não que ela nunca tenha feito canções leves e apaixonadas (quem não se lembra de “Equalize”), mas os rumos tomados aqui foram diferentes.

A princípio, me pareceu uma balada melada, chata e pretensiosa. E ainda sim, com mais de 1 milhão e 500 mil visualizações em 2 meses no YouTube. Então, resolvi ouvir novamente. Após, a segunda, terceira ou quarta audição já cantarolava “Me adora” por aí. Além de pegar o ouvinte, aos poucos a música desmistificou a impressão melosa e mostrou a atitude das letras de Pitty por detrás de temas pessoais. É óbvio que existe versos como: “Revolução Mental / Tá na hora de acordar!”, da época de hardcore soteropolitano, demonstram de maneira muito mais direta a força da artista. Mas aos trinta e poucos, Pitty comprova que outros tipos de força, além da agressão, são mais úteis empiricamente.

Por exemplo, aprender a reconhecer medos não seria ter atitude perante a vida? “Medo, escorre entre os meus dedos / Entre os meus dedos / Eu lambo os dedos / E saboreio meu próprio medo”, declara a cantora na faixa três do disco. Outras canções também extravasam sentimentos cheios de oscilações entre calmaria e explosão. “Fracasso”, dá um tapa na cara nos derrotistas e acaricia uma paixão logo em seguida com “Só Agora”.

De Balzac à Simone de Beauvoir, Pitty ainda dilacera a imagem tradicional de mulher na música “Desconstruindo Amélia”. Reflexo de uma geração que desdobra-se entre a profissão e as exigências domésticas. “Já não quer ser o Outro, hoje ela é Um também.” Apesar da minha admiração pelo conteúdo das letras, a parte musical deixa a desejar. Isso não significa que “Chiaroscuro” seja mal feito ou pouco criativo, mas o eixo musical varia pouco e sonoridade das canções, com o tempo de audição, fica repetitiva. Detalhes para uma balzaquiana que tem nas costas o peso ou a honra de levar o bom rock de frequências radiofónicas à redes de internet sem fio.

Sei que todo mundo já viu, maas...


p.s.: Além do CD, Pitty, Martin, Joe e Duda estão prestes a lançar o “Chiaroscope, o filme”. O DVD traz vídeos das gravações do disco, feitas na casa do baterista da banda, o Duda. A direção é de Ricardo Spencer e o produto está disponível para pré-venda no Submarino e na Saraiva. O mais curioso é além de disco e DVD, a capa de “Chiaroscuro” foi produzida no mesmo momento, pela artista plástica Catarina Gushiken.

2 comentários:

Agnes disse...

Adorei o Chiaroescuro. Acho que a Pitty poderia ter sentado sobre os louros e feito um disco igual aos outros que venderia horrores, mas ela se arriscou. Mas esse não é o único mérito do disco. As letras estão mais sofisticadas que nos anteriores. E me identifiquei totalmente com Desconstruindo Amélia. Eu, como ela, sou melhor aos 30 que aos 18. =)

Anônimo disse...

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